O Lendário Barry

À memoria de Barry 1
 "Ele salvou a vida de 40 pessoas e foi morto pela 41ª"

A Saga  Barry 1  Seus antecessores

 


A saga do São Bernardo

A imagem do São Bernardo, com um pequeno barril de álcool no pescoço, salvando um viajante perdido nas montanhas, consagrou-se, embora nunca tenham efetivamente carregado o pequeno barril de álcool. 

Em 1050, foi criado, em Valais, Suíça (no desfiladeiro do Grande São Bernardo), a 2.472 metros de altitude, a Pousada do Grande São Bernardo, para garantir a segurança dos viajantes. Mas os cães só chegaram em 1660, doados aos frades pelos nobres dos arredores, para que os protegessem dos bandidos. 

Em 1700, já tinham sido treinados para ajudarem na preparação da comida, utilizando um engenhoso mecanismo: ao acionarem uma roda, caminhando sobre ela, faziam girar um espeto. 50 anos depois, começaram a ser utilizados para guiarem os viajantes, que atravessavam o desfiladeiro do Grande São Bernardo durante a época de inverno. 

Por volta de 1660, os frades do Grande São Bernardo começaram a contar com ajuda dos cães, para os quais a primeira missão confiada foi a guarda do albergue. Como os monges estavam obrigados pela tradição a acolher todos os viajantes que pedissem hospedagem, sem qualquer discriminação, também se viam forçados a receber bandoleiros disfarçados. Os cães tornavam-se, então, uma proteção muito apreciada.

Só em meados do século XVIII os São Bernardos começaram a ser utilizados como cães de busca e salvamento na neve. Todos os anos, os monges contratavam um criado, denominado de marronnier, que tinha que descer diariamente ao Bourg – Saint – Pierre, guiando as pessoas que iam atravessar a montanha. Se algum viajante estava em apuros por esgotamento ou porque tinham sido apanhados por uma avalanche, o marronnier ia buscá-los. Os cães começaram até mesmo a efetuar salvamentos por  iniciativa própria, sempre que havia gente em perigo. Verdadeiros cães de avalanche, deviam indicar, escavando na neve, o lugar em que estava sepultada uma vítima ainda viva; se a pessoa já tivesse morrido, só precisava sentar-se. 

Alguns cães dedicavam-se a outras tarefas; por exemplo, eram ensinados a usar uma pequena sela acolchoada com dois recipientes tampados, um de cada lado; assim equipados, iam com um empregado buscar leite e manteiga. 

O São Bernardo tornou-se famoso em 1800. Em Maio desse ano, o exército de Bonaparte, que marchava sobre Marengo, atravessou o desfiladeiro sem perder nenhum dos seus quarenta mil homens, graças, sem dúvida, aos São Bernardos. 

Foi nesse mesmo ano que nasceu Barry, o mais ilustre de todos os São Bernardos. 

Barry 1

Foi este salvador excepcional, famoso em todo o mundo, que fez a raça São Bernardo ser conhecida. Já o nome "Barry" tem a sua história. Provém da palavra do dialeto alemão "bari", que, por sua vez, deriva de "bâr", que significa urso. O famoso Barry devia estar predestinado, pois o seu nascimento coincidiu com a travessia do desfiladeiro do Grande São Bernardo por Napoleão Bonaparte, em Maio de 1800. Barry desde cedo demonstrou que estava dotado para trabalhar na montanha, o que não era de espantar, já que os monges sabiam que descendia de uma antiga família de cães de salvamento. 

Meissner escreveu, em 1916, no Alpenrosen: "Durante doze anos, trabalhou e desempenhou fielmente a sua tarefa com os desventurados. Ele salvou mais de quarenta pessoas ao longo de sua vida. Desenvolvia uma atividade extraordinária. Nunca foi preciso forçá-lo ao trabalho. Sempre que percebia que havia alguém em perigo, corria em sua ajuda; se sozinho não podia fazer nada, voltava ao convento para pedir ajuda com latidos e diferentes atitudes. A sua façanha mais conhecida foi, sem dúvida, o salvamento de um garoto, a quem despertou lambendo e que levou até o albergue carregado nas costas. A história de que Barry teria morrido na tentativa de salvar um viajante não corresponde à realidade. Quando o superior do albergue percebeu que o cão estava muito velho para continuar a trabalhar, enviou-o para Berna, onde morreu em 1814, dois anos depois." 

Em 1815, Barry foi exposto embalsamado no museu de Berna. Recentemente, trocaram o seu corpo empalhado por um molde em tamanho natural que representa um cão grande, de constituição bastante leve se comparado aos exemplares atuais, mas cuja cabeça maciça e configuração se inscrevem bem no padrão atual. Também lhe foram dedicados outros monumentos, como o existente no cemitério de cães de Asnières, perto de Paris.

O Barry empalhado mostra um compromisso entre o que o taxidermista (ou seu chefe, o diretor do Museu) pensava que era um bom representante do cão São Bernardo e a maneira que Barry realmente se parecia. Depois, o formato do esqueleto foi alterado para representar o que era popular em 1923. Na realidade, o esqueleto de Barry era mais reto com um stop moderado. Em outras palavras, Barry era um verdadeiro, "Küherhund" (cachorro de rebanho).

Por alguma razão desconhecida, o taxidermista estava convencido a modelar uma cabeça maior com um stop mais pronunciado. Embora Barry não tenha ganho fama como um modelo de São Bernardo perfeito, ele foi agraciado por seus feitos no trabalho de resgate, tendo salvo 40 vidas ou  mais. Esse numero é disputável. Para os monges no monastério, o cuidado para os viajantes era um trabalho diário assim como a garantir que os viajantes chegassem seguramente.

A inscrição no Monumento a Barry (que por falar nisso, mostra um cão de pelo longo, nada parecido com um São Bernardo) em Asnière, perto de Paris, diz: "Il sauva la vie à 40 personnes. Il fut par le 41ème" (Ele salvou as vidas de 40 pessoas. Ele foi morto pela 41ª). Como mencionado anteriormente, isso não é verdade. 

Barry foi trazido a Berna por um monge em 1912. Isto é um fato confirmado por Heinrich Schumacher em 1866. Barry permaneceu em Berna e finalmente morreu com 14 anos. Seu corpo foi empalhado e colocado em exibição. O Taxidermista deu a Barry uma atitude mais humilde, porque o Prior queria que Barry servisse como um lembrete da servidão a futuras gerações. EM 1923, o velho Barry estufado foi remontado. Barry tinha se tornado bem frágil e sua pelagem foi dissolvida em mais de 20 partes. Graças ao novo taxidermista, Georg Ruprecht, Barry está tão bem preservado. 

Hoje, 180 anos depois de sua morte, Barry ainda tem a honra de ser exibido na entrada principal do Museu. Ele é um eterno lembrete do trabalho nada egoísta feito por esses cães São Bernardo. Os monges do Grande São Bernardo mantém a tradição e continuam a criá-los. Claro que os viajantes de hoje passam pelo túnel aberto na montanha – já não atravessam o desfiladeiro – e os cães não tem mais que ir buscar os peregrinos. Continuam, entretanto, a viver no albergue cerca de vinte São Bernardos e os turistas vão até lá para admirar os lendários cães de salvamento. É tão grande a procura de cães do albergue, que os compradores precisam se inscrever em listas de espera. As vendas constituem uma importante fonte de renda para a congregação, o que prova que os São Bernardos continuam a ser úteis, embora já não tenham de desempenhar a sua missão tradicional. 

Seus antecessores

A tradição não desapareceu com Barry, pois o sucederam Barry II e Barry III. O primeiro, que nasceu no começo do século XX, era um animal notável, de grande tamanho. O segundo morreu, numa missão em 30 de Agosto de 1910, quando uma placa de gelo o fez cair de uma grande altura. Mas outros São Bernardos têm se mantido incansáveis nessas missões. A sua abnegação não tinha limites. Se encontrava uma criança em apuros, lambia-a e fazia com que ela se agarrasse nele. Quando sentia que um homem estava em perigo, corria para ajudá-lo. (Na foto, Barry II)

Como foi mencionado antes, Barry (1800-1814) é o mais famoso cão São Bernardo. O albergue continua a honrar Barry, tendo sempre um cachorro chamado Barry. Até agora nenhum descendente de Barry alcançou notoriedade parecida. (Na foto, Barry III)

O Barry remontando, colocado em exibição no Museu de Historia Natural de Berne, mostra um cão grande e forte, mas muito menor que o moderno São Bernardo. Enquanto os atuais São Bernardos pesam 65 a 85 kg, Barry pesava abaixo de 50kg (provavelmente entre 40kg e 45kg). A altura do Barry remontado é de aproximadamente 64cm, mas Barry, quando estava vivo, era provavelmente um pouco menor. Suas marcações são muito similares àquelas marcações em uma pintura de Salvatore Rosa, uma pintura que ainda está no albergue.