Tráfico de Animais: A História de Gaio

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Olá amigos, meu nome é Gaio, personagem principal da história que vou lhes contar.

Sou um papagaio; todos me conhecem como papagaio verdadeiro, mas meu verdadeiro nome é Amazona aestiva aestiva. Infelizmente a vida não foi muito generosa comigo.

Lembro-me de quando meus irmãos e eu ainda éramos pequeninos e mamãe nos trazia comida no ninho onde nascemos, o qual ficava no oco de uma árvore bem alta e muito aconchegante; dali tínhamos uma vista maravilhosa de toda floresta. Mamãe freqüentemente nos trazia comida, pois estávamos sempre com fome. Só mamãe sabia o que nós gostávamos de comer.

No lugar onde nascemos chovia bastante quase todas as tardes; uma chuva intensa, acompanhada de ventanias fortes, mas sob a proteção das asas de mamãe nada temíamos. Papai, sempre atento, nos observava de outra árvore próxima ao ninho.

Os dias iam passando enquanto penas verdes e brilhantes cresciam em nossos corpos; ansiava o dia de poder voar sobre as matas ao lado de papai e mamãe.

Um belo dia mamãe havia saído em busca de alimento para nós; o sol estava muito forte; de repente sentimos nossa árvore balançar, ouvimos sons que nunca tínhamos ouvido antes. Qual não foi nossa surpresa quando uma terrível criatura apareceu na entrada de nosso ninho. Eu e meus irmãos ficamos muito assustados com aquele ser que nos olhava como se estivesse com muita fome. Começamos então a gritar por mamãe e papai, mas eles estavam muito longe, não estavam nos ouvindo, e de repente, sem que pudesse fazer qualquer coisa, algo me segurou com violência e me retirou de dentro de casa, pensei que ia ser devorado no mesmo instante, mas foi então que me lembrei, olhando atentamente para aquele monstro, que mamãe já havia nos falado sobre ele, era um "ser-humano"; mamãe disse que eles atacavam lares de quaisquer tipos de animais e seqüestravam seus filhotes ou até mesmo seus ovos para levá-los para muito longe; não para comê-los, mas para que fossem criados em jaulas minúsculas e nunca mais pudessem sair. Este horrível ser-humano então nos retirou um a um de nosso ninho e nos passou a um outro de sua espécie, que o ajudava. Sentia dor quando ele me pegava, pois meu corpo ainda era muito frágil. Fomos assim, um a um, jogados sem piedade em uma caixa. Um de meus irmãozinhos chorava de dor, acho que sua perna havia se quebrado por causa do choque violento. A última cena de que me lembro foi de ter visto mamãe e papai voando desesperados perto dos seres-humanos, tentando nos salvar; podia ouvir seus lamuriosos gritos nos chamando. A caixa então se fechou e tudo ficou escuro.

Passou-se algum tempo e então a caixa foi aberta. Estávamos em um lugar muito feio, com muitos seres-humanos; eles faziam um barulho insuportável e além disso, havia coisas grandes que passavam roncando muito alto que eu não conseguia saber o que era. Podia ver ao lado muitos outros papagaios e pássaros tão tristes quanto eu e meus irmãos. Alguns estavam até doentes. A comida que nos davam era muito ruim, bem diferente da comida que mamãe com muito trabalho nos levava.

Os seres-humanos que passavam perto de nós paravam e conversavam algo com quem nos capturou, em seguida olhavam longamente para nós, como se nos examinando, e iam embora. Uma fêmea de ser-humano aproximou-se e apontou para minha pequena irmã, tirou algumas folhas coloridas e quadradas de uma sacola que carregava consigo e as entregou ao ser-humano com quem nós estávamos, em seguida colocou minha irmã em uma outra caixa e a levou embora; nunca mais veríamos nossa irmã. Não demorou muito chegou minha vez, fui retirado da caixa, afastado de meu irmão e colocado em um saco. Pouco tempo depois me fizeram tomar uma bebida horrível; após tomá-la veio um sono muito forte e fiquei quase desacordado. Sentia que estava sendo carregado para algum lugar, mas não podia ver; estava sufocando dentro daquela caixa apertada, escura e abafada. Não demorou muito e desfaleci.

Depois de muito tempo acordei. Estava dentro de um lugar que os humanos chamam de casa, vários deles me olhavam e me ofereciam uma comida ruim, tinha que comer senão morreria de fome. Não via mais nenhuma árvore e não ouvia mais os sons da floresta. O cheiro daquele local era péssimo; fazia frio, sentia falta da proteção e do alimento que mamãe me dava. O que teria acontecido aos meus irmãozinhos? E mamãe e papai? Puxa, como sentia saudades! Pensando neles comecei a chorar.

Na casa onde eu estava havia também outros pássaros aprisionados. Com curiosidade, perguntei a eles o que haviam feito para também estarem presos, a resposta de todos foi idêntica: não sabiam.

O tempo passou, eu já estava um pouco maior. Além de estar confinado a uma gaiola, havia ainda uma corrente a me prender, o que machucava muito minha perna. Freqüentemente eu ficava doente. Obrigavam-me a falar como eles, deixavam-me junto aos demais pássaros até altas horas da noite sem dormir, com muito barulho e com fortes luzes acesas sobre nós.

Acabei aprendendo que muitos seres-humanos não tinham compaixão por nenhum outro ser vivo, pois sempre via, em uma coisa que eles chamam de televisão, seres como eles condenando muitos animais ao fim, pela destruição das florestas ou pelo simples prazer de matar, que eles dizem ser o "esporte" da caça. Aí me indaguei: será que eles não dependem de árvores e de outros animais para sobreviver, assim como nós dependemos? Será que eles não fazem parte do ambiente em que vivem, para o destruírem da maneira como fazem?

Passei a entender que não havíamos cometido crime algum, no entanto, ficaríamos presos pelo resto de nossas vidas apenas para saciar a crueldade, disfarçada de bondade, de seres-humanos.

Certo dia, notei que dois seres-humanos rondavam a casa de meu "dono" observando a mim e aos outros pássaros; pouco tempo depois foram embora. Não prestei muita atenção ao fato e qual não foi minha surpresa quando estes mesmos humanos voltaram mais tarde acompanhados de outros de sua espécie, os quais chamavam de "policiais", pedindo para falar com meu "dono". Depois de uma longa conversa, os policiais o fizeram entrar em um "carro" - aquela máquina barulhenta que ouvira quando me trouxeram da floresta - e foram embora para um lugar chamado "delegacia". Disseram que ele seria preso por aprisionar animais em casa, principalmente animais nativos do país, ou "silvestres", como eles diziam.

Cada vez eu entendia menos ainda o que estava acontecendo. Aqueles dois seres-humanos que antes estavam rondando a casa de meu "dono" começaram então a retirar todos os pássaros aprisionados e levá-los para um outro carro. Inclusive eu.

Fomos levados até a tal delegacia, onde encontrei meu "dono", dentro de uma "gaiola" bem maior que a minha, junto com outros seres-humanos. Descobri que os humanos que cometiam crimes eram aprisionados por algum tempo para que aprendessem a não fazer mais coisas erradas, perdendo assim o direito à liberdade. Ele não poderia mais caminhar à vontade, indo para qualquer lugar onde quisesse ir! Experimentaria a tristeza dos pássaros que não puderam voar por sua causa...

Depois de algumas horas, os humanos que prenderam meu ex-"dono" iniciaram uma longa viagem conosco para um local onde muitos animais como nós eram acolhidos e posteriormente devolvidos às suas origens, ganhando finalmente a liberdade. O meu caso era um pouco mais complicado, pois eu nunca havia voado e teria que aprender. Alguns humanos chamados "veterinários" disseram que minha musculatura estava totalmente atrofiada por causa dos vários anos de cativeiro. Mas após alguns meses de tratamento eu recuperaria minha saúde e assim poderia voltar para floresta. Os veterinários começaram então a conversar com os dois humanos que nos salvaram e só aí entendi que eles faziam parte de um grupo que lutava pela preservação da vida selvagem no planeta. Eram membros de uma "organização não governamental".

Fiquei muito feliz por descobrir que, afinal de contas existem seres-humanos que se preocupam conosco, apesar de serem poucos. E finalmente peço-lhes que, por favor, NÃO COMPREM ANIMAIS SILVESTRES! NÃO TENHAM ANIMAIS SILVESTRES EM CASA OU ESTARÃO PRATICANDO UM CRIME CONTRA O PLANETA! NÃO SE ESQUEÇAM, TODOS NÓS PRECISAMOS DELE, É A NOSSA ÚNICA CASA.

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Autor: Marcelo Pavlenco Rocha