O Impacto da Carne


Parte I 

Muitos aspectos envolvem o vegetarianismo hoje, que o faz deixar de ser um simples hábito alimentar para se tornar uma forma de relacionamento com o meio que nos cerca e com nós mesmos. Aspectos ambientais, de saúde e éticos são, na minha opinião, os principais fatores que nos levam a questionar o consumo de carne em sua totalidade. Este consumo tem causado muito mais males do que imaginamos, e sob nossa responsabilidade e cumplicidade.

A criação de animais é uma prática antiga de subsistência. O que antes era algo familiar, ou de pequena escala, tornou-se uma indústria em escala mundial, a ponto de influenciar práticas políticas desenvolvimentistas e econômicas em nossa sociedade. A indústria da carne se torna prática obsoleta, dadas as fontes protéicas de origem vegetal existentes no planeta. A produção industrial da carne se tornou consumidora voraz destes recursos vegetais. Mais grave ainda é o fato de que esta mesma indústria é responsável pela contaminação da terra e dos rios com nitrogênio, pelo desgaste das pastagens, pela extinção de espécies e mudanças climáticas. A agricultura animal lança, definitivamente, uma carga enorme sobre a natureza, e o preço deste desgaste é muito mais elevado do que aquele que costumamos pagar em açougues. O débito se acumula. O fato de alimentarmos animais com vegetais faz com que se invista uma enorme quantidade de  recursos, como água, terras, etc. Segundo a Worldwatch Institute, 38% da colheita mundial de grãos é destinada à criação animal. Nos EUA, essa porcentagem sobe para 70%. Para se ter uma idéia do desperdício gerado pela indústria da carne, um acre de terra fértil pode produzir 80 toneladas de batatas, 60 de cenoura, 100 de tomates ou 500 quilos de carne. De 145  milhões de toneladas de cereais, com as quais se alimenta o gado, produzem-se apenas 21 milhões de toneladas de carne e derivados. São precisos 10 quilos de proteína vegetal para produzir 1 quilo de carne. No mundo, estima-se que o gado consome uma quantidade de comida equivalente as necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas, quase o dobro da população mundial! Nos EUA, por exemplo, a água utilizada para produzir meio quilo de carne equivale a quantidade de água consumida por uma família inteira durante um mês.

A devastação que é exigida na criação de novas áreas de pastagens está destruindo florestas e contribuindo com a extinção de espécies. Desde 1970, a indústria do gado destruiu 20 milhões de hectares de floresta tropical somente na América Latina. A McDonald’s, por exemplo, admitiu ter usado terras em áreas de ex-florestas úmidas para a criação de gado. Na década de 70 e 80, a carne que supria as 250 lojas desta corporação provinha de áreas do estado de Goiás, identificadas por especialistas como "áreas nas quais haviam florestas equatoriais úmidas". Sem falar na expropriação de terras indígenas que tem causado, até hoje, conflitos nestas regiões.

Se as terras que servem hoje de pasto para alimentar a criação animal fossem destinadas à produção de vegetais, calcula-se que produzir-se-ia o suficiente para alimentar, com abundância, toda a população humana do planeta, e ainda assim haveria sobra.

Em Santa Catarina, rios estão morrendo devido a criação animal. Tem-se notícias freqüentes da contaminação das águas por pesticidas, excrementos e outros lixos nelas despejados direta ou indiretamente, devido à cobiça e ao descaso dos criadores de animais.

Muitas espécies aquáticas foram extintas da face da terra devido à pesca, e outras tantas estão em ritmo de extinção. Quando compramos atum, por exemplo, financiamos a morte por afogamento de golfinhos, aves e outros animais que acabam nas enormes redes de barcos-fábrica. O número de toneladas de peixes capturados diminui a cada ano. O peixe é a base da cadeia alimentar de muitas espécies. Isto significa que, além de comprometer os próprios peixes, comprometemos ainda aves e mamíferos, por exemplo.

É muito importante salientar que existe hoje, dentro da área de cultivo de vegetais, uma preocupação crescente com a redução de impactos causados pelo uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos, inseticidas, produtos transgênicos, devastação, etc. A agroecologia tem encontrado soluções ecologicamente sustentáveis de produção. Pode-se, inclusive, encontrar nos mercados os frutos de tais iniciativas. O tipo de produção empregada nestes novos sistemas - limpos e sustentáveis - não se compara àquele da produção tradicional ainda presente na agricultura, nem, muito menos à produção de carne.

Consumindo carne, consumimos o planeta...

* Thales Tréz

Parte II

O homem, possuidor de inúmeros conhecimentos científicos, usa várias armas para a obtenção de lucro, ignorando que tudo aquilo que julga fazer somente para outros, também o faz para si. Esquece-se que faz parte de um todo onde ele é mais um ser vivo dentre tantos outros. Pensar, muitas vezes, o enaltece e ele usa "esses conhecimentos" sem analisar as possíveis conseqüências.

Os riscos decorrentes podem ser maiores que os benefícios momentâneos.

Com a intenção de aumentar a produção e a rotatividade dos animais em seus locais de criação, os produtores perceberam que, incorporando antibióticos (Clortetraciclina, oxitetraciclina), hormônios (dietilestilbestrol) , dentre outros, poderiam melhorar a conversão da ração, reduzir morbidade, mortalidade e estimular o aumento do crescimento animal.

Os antibióticos no gado, nas aves, nos porcos , exercem alteração nos modos de processos metabólicos, e o melhor aproveitamento de nutrientes está relacionado a alteração da flora intestinal, selecionando microorganismos que possuem maior capacidade de sintetizar vitaminas e aminoácidos.

O uso de hormônios, antibióticos e de suplementos antimicrobianos na ração pode resultar no aparecimento de resíduos em produtos de origem animal: leite, carne e ovos.

Resíduos de drogas podem ser responsáveis por riscos mutagênicos, carcinogênicos e imunopatológicos para os consumidores.

A ingestão de hôrmonios pode estar relacionada com a precocidade da ovulação, na menstruação das meninas. O colesterol (comum na carne) e hormônios administrados para aumentar o peso em animais, podem provocar câncer de mama, próstata, útero, enfim, hipertrofias de órgãos hormonodependentes.

Administração de doses subterapêuticas de antibióticos promove resistência bacteriana por dizimar as mais "fracas" de uma variedade de microorganismos normalmente presente em animais, fazendo com que as cepas resistentes à drogas aflorem. Se tais microorganismos são transferidos para o homem na cadeia alimentar, eles poderiam dificultar o tratamento de infecções humanas, a ponto de a bactéria não responder a vários antibióticos.

Salmonella, Escherichia coli e outras contaminações de produtos animais por bactérias podem ser fatais em crianças, mulheres grávidas, nutrizes e idosos. O envenenamento por salmonelose pode ser causado por qualquer produto animal ou qualquer substância em contato com essas substâncias. De acordo com a revista Time (17/10/94), "as estimativas conservadoras são que a carne de galinha contaminada matam, pelo menos, 1000 americanos a cada ano".

Recentemente, no Japão, foram encontradas cepas de Staphylococcus aureus com alta resistência aos antibióticos. Alerto para o surgimento de uma bactéria resistente a todos antibióticos. Alergias podem ser causadas. A penicilina, que não é eliminada com o cozimento dos alimentos, é o antibiótico que possui maior incidência de hipersensibilidade.

Outros resíduos, como pesticidas, herbicidas, metais pesados e outras toxinas não biodegradáveis acumulam-se na cadeia alimentar nos produtos animais. As carnes que não são de origem marinha e os laticínios são responsáveis por mais de 90% da exposição humana à substância tóxica dioxina.

Soma-se a isso o aumento do risco de doenças cardíacas, relacionado às dietas com alto teor de gordura saturada encontrada, em sua maior parte, nos alimentos de origem animal e seus processados. Ingestão de muita proteína (inclusive de animais) acidifica o sangue, fazendo com que o cálcio seja drenado deste, aumentando o risco de osteoporose.

Animais carnívoros possuem trato intestinal curto e mecanismos de proteção contra toxinas, provenientes da degradação da carne, que se distingue bem caracteristicamente do nosso. O fato de sermos animais onívoros, não nos priva das intempéries provenientes da decomposição da carne em nossos intestinos, que pode reter um churrasquinho por até uma semana, exigindo muitas vezes um consumo de energia maior do que o ganho com este alimento.

A visão de que somos seres capazes de nos adaptarmos a todas estes aditivos, e outras substâncias, colabora com a manutenção deste hábito social tradicionalmente cruel. Já pararam para pensar no quanto pagamos por esta adaptação?!

Isto é só uma ponta da perversa indústria pecuária, e não imaginem vocês que os produtores alertem seus consumidores, sendo "eticamente corretos", para que esses possam optar por consumir ou não esta carne e todos os seus aditivos, pois seus lucros são maiores que os nossos benefícios.

* Carla Maísa Camelini

Parte III

O impacto que causamos aos animais, e o conflito ético que deparamos ao analisar tais impactos, podem nos levar a sérias reflexões morais à respeito desse nosso hábito alimentar.

Os animais na indústria da carne são tratados como objetos, como produtos. Os criadores de carne apenas se preocupam com seu bem estar se estes estão dando menos lucro que o devido. As indústrias tem feito de tudo para maximizar a produção e a oferta destes "itens alimentares", e passam por cima de tudo, inclusive de você.

É na produção intensiva de animais que encontramos os maiores crimes. Para se ter alguma idéia, muitas das galinhas que comemos viveram sua vida inteira em um espaço médio equivalente à uma folha de papel A4, sem ter o direito ao ar fresco, ou até mesmo à luz do dia. As galinhas poedeiras tem seu ritmo biológico alterado artificialmente para que ponham mais ovos. Pintos tem seus bicos queimados, para evitar a auto-mutilação e as brigas, comum em ambientes onde se criam muitos animais.

O abate de animais de médio e grande porte é ainda mais cruel. Com uma marreta pesada, o abatedor deve acertar, com um golpe certeiro, uma região da cabeça do animal. Geralmente o animal se debate bastante neste momento, o que faz com que o abatedor erre o golpe. Isso resulta muitas vezes em lesões graves nos olhos e narinas, ou num desmaio momentâneo. Este último faz com que o animal vá para o corte ainda vivo. Existem máquinas que carregam os porcos vivos de cabeça para baixo, se debatendo. Em um dado momento um abatedor, com uma faca na mão, corta-lhes a garganta, fazendo com que o sangue jorre abundantemente no chão.

A produção de foie-gras (patê de fígado gordo) foi banida em vário países devido a crueldade infligida à gansos e patos. Os animais atualmente são mantidos em gaiolas super-apertadas nas últimas semanas de vida, onde não podam se mexer para não gastar energia. A ave é presa entre as pernas do operador com seu pescoço estendido e um tubo de metal de 40cm é introduzido na sua garganta. Um motor gira um parafuso que empurra a comida diretamente até o estômago do animal. Após isso, um elástico é colocado na garganta do animal para que ele não vomite a comida. Estes animais "comem", por dia, o equivalente humano de 12,5Kg de espaguete.

Poderia falar dos vários crimes que cometemos à muitos animais para que possamos comê-los (e eles são muitos), mas de nada adiantaria se o leitor não acredita que muitos animais podem sentir dor ou sofrer. Tenho certeza de que se aqueles que comem carne tivessem que matar os animais para isso, deixariam de comê-la.

A exatidão na aproximação de sensações não é necessária para que possamos relevar a sensibilidade nestes animais, mas as evidências ao observá-los com calma e cuidado levam-nos a acreditar que eles demonstram sensações e interpretam realidades à sua maneira. É visível o desespero de uma vaca na fila do abate, ao perceber que seu fim será o mesmo que o do animal à sua frente. Quando separam a vaca de seu filhote (para abater o filhote ou para extração de leite) é visível a alteração comportamental devido a falta que a vaca sente do filhote. O cuidado parental nestes animais é muito grande, e extremamente evidente. Manifestações corporais, sonoras, brincadeiras, cuidado, atenção e outros comportamentos são facilmente observáveis dentro de muitas classes animais. Muitas outras características intrínsecas ainda se manifestam sem que percebamos.

A questão principal não é saber se eles falam, pensam ou raciocinam, como disse o filósofo Jeremy Bentham há 200 anos atrás, mas sim se eles podem sofrer. E quando estamos infligindo sofrimento a um animal ao limitar sua vida, criá-lo sem luz natural ou espaço para se mover, esquartejá-lo vivo, submetê-lo às condições anti-higiênicas de vários estabelecimentos, empurrar comida goela abaixo, etc., devemos parar e pensar: é justo? necessário?

Talvez seja difícil aceitarmos estes fatos. Talvez seja mais fácil acreditar que eles "são apenas animais" para que possamos comer nossos bifes em paz, e aceitar de uma vez por todas que temos preguiça de raciocinar moralmente!

Mas para nós, humanos, que temos a capacidade de matar e ver morrer seres de nossa própria espécie, sem sentir ou se incomodar com isso, é muito fácil aceitar estes crimes gastronômicos.

Além do que, eles não acontecem do lado de sua casa, não passam na televisão e vem em embalagens bonitas,...com animaizinhos sorrindo para você!

* Thales Tréz

Parte IV

" Você não come carne?! Credo, o que você come então ?! ", com certeza essa é a reação mais notória na maioria das pessoas quando se trata do assunto Vegetarianismo.

Existe ainda um certo tipo de "tabu" que envolve essa questão e que é muito bem alimentado pela indústria da carne com milhões de dólares em propaganda incentivando o consumo. As escolas, a mídia e o governo também fazem propaganda para o consumo de carne. Nas escolas, as merendas (quando existem) que não são bolacha e suco, oferecem muitas vezes produtos derivados do sofrimento animal, o que acaba saindo caro e maléfico à saúde. Uma boa saída é a distribuição de alimentos mais saudáveis e livres de crueldade, o que resultaria numa melhor aprendizagem e também numa merenda mais barata.

O consumo da carne é algo mais cultural do que necessário, e isso pode-se ser comprovado através do vegetarianismo. Nós, vegetarianos, não sentimos falta da carne animal, mesmo porque a natureza é tão diversificada e vasta que oferece muitas outras fontes de alimentos sem ser a animal, é só ter um pouco de força de vontade para procurar.

Desde crianças somos obrigados a comer carne, e isso cresce de uma tal maneira que quando nos tornamos adultos, isso se repete na educação de nosso filhos, sem mesmo termos noção do mal que estamos fazendo à eles, e principalmente à vida não-humana.

Às vezes se ouve dizer que é impossível um cidadão comum (um operário por exemplo) deixar os hábitos alimentares carnívoros, com argumentos de que ele necessita desse tipo de alimento para executar bem seu trabalho. Mas se analisarmos bem a questão, entenderemos que tudo não passa de costume, e que a idéia de "necessidade" é pura ilusão.

Uma dieta vegetariana lhe proporcionaria muita força, já que os grãos, vegetais, frutas, cereais, sementes e outros alimentos fornecem muita energia e nutrientes necessários para um bom desempenho corporal, ...e não tem a monstruosa quantidade de hormônios e outros aditivos químicos que se encontram nos derivados animais.

São inúmeros os pontos positivos para se tornar um vegetariano, desde a questão financeira, de saúde e até mesmo a parte pelo respeito pelos animais não-humanos.

Os vegetarianos têm taxas de mortalidade por câncer menores, especificamente câncer de cólon e de pulmão. O alto conteúdo de fibras na dieta vegetariana é uma razão, mas há provavelmente outros fatores. As mulheres vegetarianas têm níveis sangüíneos de estrogênio mais baixos, os quais podem protegê-las de câncer de mama. As principais autoridades em câncer concordam que os alimentos vegetais protegem contra essa doença. As plantas estão carregadas com nutrientes (como vitamina C, vitamina E e beta-caroteno) que têm mostrado a inibição do câncer de várias formas. Ainda mais importante: as plantas contém fitoquímicos como as isoflavonas e licopeno, alguns dos quais têm demonstrado a inibição direta do crescimento de tumores e células cancerosas.

O risco de doenças cardíacas está relacionado às dietas com alto teor de gordura saturada a qual é encontrada, em sua maior parte, nos alimentos de origem animal e alimentos processados. "Quando nós matamos os animais para comê-los, eles acabam nos matando também porque sua carne, que contém colesterol e gordura saturada, não foi feita para os seres humanos", disse William Roberts, da American Journal of Cardiology.

A carne contém 14 vezes mais resíduos de pesticida do que muitos alimentos vegetais. E mais, enquanto 38% dos grãos do mundo são consumidos por animais, 15 milhões de crianças morrem por ano de fome em países em desenvolvimento.

Índios, por exemplo, comem carne, mas isso não serve como justificativa para que possamos comer. Nossa estrutura social é muito diferente da deles, a começar pelos métodos de obtenção da carne.

Outra justificativa errônea é a de que podemos comer animais, porque estes matam para comer na natureza. Mas eles estão naturalmente inseridos dentro de uma cadeia alimentar. Também estamos (não tão naturalmente como eles), mas temos a possibilidade de escolher. Certamente não morreremos se deixarmos de comer carne. Podemos decidir entre comer carne ou não, mas os animais que você come não tem escolha.

As vantagens de ser tornar um vegetariano são imensas, e algumas delas estão aí. Cabe a você agora se posicionar entre continuar com a alimentação cruel com você e com os animais não-humanos ou acabar com esse ciclo vicioso.

Lembre-se: você é o que você come!!!

*André Vinícius Prado Pitta (Pinduka)

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