Imagine: Vivissecção

Referências


Imagine um pequeno cão. Preso numa gaiola, numa sala escura. Ao seu lado, e acima, e abaixo, outras gaiolas, com outros animais. No silêncio, ele fica acordado, presa de expectativa. Já cansou de latir, uivar, e agora apenas espera - pelo que não sabe nem pode prever. Foi trazido de algum lugar (um centro de controle de zoonoses da prefeitura), depois de ter sido apanhado pela carrocinha

Um cão que vivia solto pelas ruas. Sem dono, sem nome, sem referência, esteve próximo do sacrifício, mas enfim alguém adquiriu sua posse. Uma faculdade - uma das muitas faculdades de medicina que ainda usam animais. 

O tempo passa. Em sua mente, apenas a escuridão. Vez ou outra, um ruído próximo: outro animal se move, ou suspira. Com fome, arrepiado (é frio, o depósito), o cão mantém-se quieto, enroscado em si mesmo. Os olhos varrem o escuro, mas sabe que adiante estão as grades. 

Então, um som. Um filete de luz surge ao rés do chão. E uma porta se abre. Um homem vestido com uniforme azul entra na sala, enquanto animais acordam e começam a latir. O cão na gaiola se levanta e, não sendo bravo, aperta os olhos para acompanhar o movimento. Vê as grades se abrirem, é seguro por mãos firmes e comprimido junto ao peito. 

De repente, está no meio da luz. O contato do uniforme o esquenta, as mãos têm delicadeza. O homem tranca o depósito, os latidos dos animais ficam distantes. Cruzam um corredor, de paredes brancas e janelas gradeadas. Cruzam outra porta e, no momento seguinte, o cão vê-se entre dezenas de pessoas. São rapazes e moças, vestidos com jalecos brancos - alguns parecem tensos. Farejando o ar, o cão percebe medo e o coração bate mais forte. Há um clima tenso e todos o seguem com o olhar. No silêncio da sala, um homem maduro, também de jaleco, toma-o das mãos do primeiro homem e diz alguma coisa. 

O-B-R-I-G-A-D-O (o tom soa tranqüilo). 

Sozinho, o cão busca em redor. Numa janela, o começo da manhã: um pátio, pessoas, carros parando. O coração batendo, ouve o professor falar aos estudantes. Alvo de olhares, sente a tensão crescer, mas nem todos estão tensos. O silêncio continua grande, entre cada palavra do homem de branco. Não há tanta delicadeza, agora - as mãos apertam seus rins. Algo como ser pego com pouca atenção. Chega o momento em que o homem pára de falar e dois rapazes acercam-se do cão. Pares de mãos colocam-no sobre uma mesa - de costas, sobre o frio alumínio. Os jovens mantêm-no nesta posição, enquanto o professor toma cada uma das patas e estende, amarrando com barbante. 

O cão vê tudo de cabeça para baixo. No crânio, a pressão da mesa, o frio nas orelhas e no dorso. Tenta se mover, mas as pernas estão esticadas para fora. Quanto mais luta, mais forte é a pressão nos pulsos. Sentindo o ar, percebe a tensão, agora dominante - o coração batendo muito rápido. Então, o homem de jaleco diante de seus olhos prende-lhe o focinho com barbante. Sem ver a janela, o cão escuta o homem falar, palavras que não entende, avisos que não entende e instruções que não entende. Se pudesse entender, saberia que tratam da importância do conhecimento científico e da necessidade de observação imparcial diante do que será feito. 

O cão escuta um som metálico - uma caixa é colocada, ao seu lado. Uma moça, de vinte e poucos anos, tira um objeto brilhante e o entrega ao homem de jaleco. O coração bate sob a pele, os pulmões respiram com rapidez e há uma ânsia de latir. A dor nos pulsos fica mais angustiante. Já não vê a janela, mas ouve ruídos, sons vindos de longe. O cão procura uma presença, olha em redor de si, mas somente vê frascos escuros e cartazes com desenhos (fisiologia humana). 

Nesse momento, o grupo aproxima-se, fecha-se em torno: dezenas de jalecos brancos e, mais próximo, o professor. Então, sente uma dor aguda - começam a cortar sua barriga. 

O coração dispara, tenta soltar-se, a dor fica insuportável. Debate as pernas, mas tão presas estão que quase não pode movê-las. Os pulsos estalam, o pescoço incha, os olhos ficam vermelhos e um gemido escapa pelo barbante. Como queria latir - desabafar a dor! O corpo quente diante de seus olhos debruça-se, o ventre arde e queima enquanto o bisturi avança. O cão grita, mas o som perde-se na garganta. Não houve um som, apenas as batidas surdas do coração. 

Ninguém fala, existe apenas a tensão contida. Movendo a cabeça, vê jalecos amarelos (a visão se embaça), rostos contritos e atentos. Os olhos não piscam, mas evitam os seus. 

Sobre a mesa, o cão treme. Já não luta, não se move - mas ainda está vivo. Um calor brota de si, escorre pelo corpo, empapa seu dorso - sangue jorrando. A mente nublada, os olhos escuros, sente o bisturi parar. Mãos abrem sua barriga. O corpo estremece, as pernas de afrouxam, enquanto as vísceras são manuseadas. O coração bate fraco, os olhos se fecham, a respiração diminui. Os jalecos se inclinam, uma voz fala no silêncio sem gemidos. 

Depois, fecham-no. E acaba a lição.  

* Uma pessoa contou-me esta história. Na verdade, era ainda pior - preferi atenuá-la. Trata-se de um fato recente, que não foi denunciado. É verdade que leis proíbem tal prática, sem anestesia. Mas quem garante que sejam cumpridas? *
Referências

Do livro Sociedade, ecologia e direitos dos animais.

 Alguns sites anti-viviseccionistas:
www.apasfa.org
www.petaonline.org
www.geocities.com/petsburg/8205
www.sosanimal.spedia.net
www.falabicho.org.br