Farra do Boi


Todas as Semanas Santas, em Santa Catarina, descendentes de açorianos, associando o boi a entidades pagãs, supliciam bois até a morte, representando a linchamento a vitória do cristianismo sobre os mouros.

Munidos de paus, pedras, açoites e facas, participam da farra, homens, mulheres, velhos e crianças. Assim que o boi é solto a multidão o persegue e agride incessantemente. O primeiro alvo são os chifres, quebrados a pauladas. Em seguida tem os olhos perfurados. Se o animal foge para o mar é arrastado pela multidão e o suplício continua. Seus cascos às vezes são arrancados e o animal é obrigado a correr pelas ruas com as patas em carne viva. A tortura só termina quando o animal, horas depois, já com vários ossos quebrados não tem mais forças para correr às cegas, sendo definitivamente abatido e carneado para um churrasco. " O bicho pula e escoceia, tenta cornear os mais próximos, mas a lâmina aguda de mil facas e até canivetes transformam-no em uma posta de sangue. Abrindo caminho ele corre...e tropeça... e cai. Porrete em riste, os mais selvagens já lambuzados de sangue da vítima malham, malham até a morte do indefeso. Está consumada a Farra do Boi." ( descrição de João Manito, Revista Brasília).

Tudo veio a público com uma carta da escritora Urda Kluger ao Jornal o Globo, no ano passado e cuja cópia chegou às mãos do jornalista e ecologista Dagomir Marquezzi, de " O Estado de São Paulo", por uma sócia da Liga de Prevenção da Crueldade contra o animal, Renate Marianne Perez, de Campinas. Dagomir Marquezzi encabeçou a campanha em sua coluna Recado Ecológico, que agora alcançou vulto internacional, chegando a ser tema até de teses de mestrado.

Por trás desse tumor social, como bem chamou Dagomir Marquezzi, existe uma máfia dos criadores de gado ( nessa época o preço do boi aumenta), dos donos de restaurantes do litoral catarinense ( compram boi e entregam aos pescadores em troca de fornecimento preferencial do peixe, empresários ( que oferecem boi como brinde para a festa), frigoríficos ( que alugam o boi para o suplício).

Enquanto os adultos praticam a farra do boi as crianças praticam a farrinha. São bodes e até filhote de gato, nada escapa, noticiou o Diário Catarinense, de 13 de abril de 1987. Crimes cometidos por crianças, mas guiadas por aduldtos, os mestres.

As entidades ambientalistas logo se mobilizaram para deter esta barbárie: Em 3 de março de 1988 Ana Maria Pinheiro protocolou representação junto à Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e Interesses Difusos do Ministério Público Federal.
Em 25 de novembro de 1988 a Liga de Prevenção da Crueldade contra o Animal, através de sua presidente e advogada, Edna Cardozo Dias, encaminhou petição à Promotoria de Justiça do Estado de Santa Catarina, para propositura de medida cautelar e ação Civil Pública contra o Governo de Santa Catarina, bem como petição à Assembléia Legislativa pedindo que o Senhor Governador e fosse julgado por crime de responsabilidade.

Em 26 de abril de 1989 as entidades do Rio de Janeiro APANDE - Associação Amigos de Petrópolis, Patrimônio, Proteção dos Animais e Defesa da Ecologia, Liga de Defesa dos Animais, SOZED - Sociedade Zoofila Educativa e Associação Protetora dos Animais, ajuizaram Ação Civil Pública contra o Estado de Santa Catarina, que foi julgada procedente , em Recurso Extraordinário pelo Supremo Tribunal Federal, uma vez que não teve decisão favorável em Santa Catarina. O relator Francisco Resek deu parecer favorável á proibição da Farra do Boi, que entretanto deixou o Supremo para ser representante do Brasil na Corte Internacional de Haia. O Ministro Maurício Correa pediu vistas do processo a fim de tumultuar, mas sua estratégia não surtiu efeito.

Em 12 de abril de 1990 a União em Defesa da Natureza encaminhou denúncia ao Dr. Romeu Tuma, então Secretário da Receita Federal e Diretor da Polícia Federal, referente a crimes de sonegação fiscal relacionados com a Farra do Boi, com a afirmação de utilização do caixa 2 para a compra e doação de bois por parte de políticos catarinenses.

Em 23 de março de 1992 as organizações Quintal de São Francisco, União Internacional Protetora dos Animais - UIPA, Associação Protetora dos Animais São Francisco de Assis - APASFA, TUCUXI - Grupo de Proteção ao Boto, APANDE - Liga de Prevenção da Crueldade contra o Animal, União em Defesa da Natureza, Associação de Amparo aos Animais, Sociedade Norte- Mineira Protetora dos Animais, dirigiram denúncia ao Dr. Aristides Junqueira, então procurador Geral da república, solicitando providências legais do Ministério Público.

Foram várias viagens realizadas pelos ecologistas a Santa Catarina e Brasília no intuito de coibir a Farra. Lideraram incansavelmente o movimento Ana Maria Pinheiro, Sônia Fonseca, Claudie Dunin, Edna Cardozo Dias, Fernanda Colagrossi, Lya Cavalcanti, Márcio Augelli, Dorival Valverde, Antônio Carlos Gandara Martins, Deise Jankovic, João Cabral, Renate Marianne Perez, entre outros.

O Deputado Fábio Feldman propôs projeto de lei tipificando como crime a realização de festejos com morte de animais, não tendo acabado de percorrer todos os seus trâmites regimentais.

Mas, nada disso foi capaz, até agora de deter a fúria da multidão de sanguinários e o sadismo latente no ser humano. Atos de vandalismo criminosos, martírios atrozes são praticados contra animais inofensivos, tudo com o consentimento das autoridades governantes e religiosas, que outorgam patente de cultura a esta selvageria: a vergonha nacional por excelência, o passaporte da interioridade moral e intelectual de um povo. O Governo de Santa Catarina criou uma comissão de Estudos que considerou a Farra do Boi como movimento cultural. Nem os mangueirões para a realização do espetáculo foi suficiente para tornar a vigilância policial eficiente.

Podemos chamar de pacíficos cidadãos que, para se divertir, assassinam boi e vacas a pontapés, pedradas e navalhadas? Podemos chamar de pacíficos demagogos desonestos, que liberam o direito de torturar os animais ao arrepio da lei? Um país civilizado pode continuar ignorando esses crimes e esses atentados aos direitos de qualquer ser vivo?

Podemos classificar a Farra do Boi como a neo - incultura brasileira em toda sua glória. Festa que o governo catarinense, que se diz democrático, qualificou de manifestação de cultura popular catarinense. 

Um autêntico conceito de cultura é unicamente aquilo que eleva o homem acima do instinto e o leva a viver em harmonia com a ética, rejeitando do passado tudo o que, atavicamente o mantenha na brutalidade e grosseria.