Pessoas Imunocomprometidas e Animais de Estimação

Introdução  Benefícios  Riscos  Como Proceder  
Orientando o Proprietário  Referências


Introdução

Que os animais de estimação podem transmitir doenças para nós, seres humanos, todos sabemos. Mas o convívio com os mesmos compensa todos os riscos: os animais nos ajudam a superar problemas, doenças, ajudam-nos a nos tornar mais sociáveis com outras pessoas, melhoram nossa saúde, seja acariciando-o ou exercitando-o, diminui tensões, ansiedades, medos, diminui nossa pressão arterial e freqüência cardíaca. Ou seja: os animais nos fazem mais bem do que mal. Mas claro que, para que o animal não nos transmita qualquer tipo de doença, é necessário que nós, donos, zelemos por sua saúde física (banhos, escovações, vacinações, vermífugos, controle parasitário etc).

Atualmente, como sabemos, o número de pessoas imunocomprometidas (pessoas cujo sistema imunológico - defesas do organismo - está comprometido - doente, prejudicado) vêm aumentando e muitas delas convivem com um grande companheiro: seu animal de estimação. Essa convivência lhes traz benefícios a longo prazo, como aumentar as chances de sobrevivência.

Existe ainda muito preconceito sobre a interação de cães e gatos com essas pessoas, mas é preciso mostrar o quão benéfica é essa relação. O médico veterinário está aí para ajudar nesse aspecto, proporcionando uma qualidade de vida melhor à essas pessoas, junto do seu animal de estimação. Basta apenas seguir regras básicas e a convivência será saudável e benéfica, para ambos os lados.

Benefícios de se ter um animal de estimação

Muitas pessoas com AIDS vêem no seu animal de estimação mais do que um simples animal, mas sim alguém que é parte importantíssima da família. Isso porque o animal não a rejeita, ao contrário da maioria das pessoas, e passa a confortar a pessoa, a fazê-la viver mais feliz e saudável e, muitas vezes, a doença progride mais lentamente.

Os animais fazem com que a pessoa fique menos ansiosa e mais relaxada, além de diminuir a pressão arterial e a freqüência cardíaca. Aqueles que possuem cães, além de serem beneficiados por sua companhia, ainda são beneficiados fisicamente, devido aos exercícios feitos com o animal, como os passeios diários, brincadeiras etc.

Principais benefícios que os animais nos proporcionam

Benefícios psicológicos:

Benefícios fisiológicos:

Benefícios sociais:

Existem muitos projetos no mundo, principalmente na Europa e nos EUA, que recentemente têm chegado ao Brasil, onde cães, gatos, coelhos, cavalos, entre outros animais, estão sendo usados como terapeutas com muito sucesso. Isso porque eles estimulam as pessoas a andar, fazer exercícios (principalmente idosos), a conversar mais com outras pessoas, se reabilitar de acidentes, tornar pessoas agressivas mais calmas, ensinar responsabilidade, auxiliar no tratamento de crianças hiperativas, tímidas, entre outros inúmeros benefícios.

Riscos de se ter um animal de estimação

As pessoas imunocomprometidas têm maior predisposição a adquirir doenças infecciosas, e a maioria delas não sabe que seus animais de estimação podem ser os transmissores. Mas, com os cuidados de higiene adequados, essas pessoas podem vir a ter o seu animal de estimação tranqüilamente e com uma boa notícia: as chances dela adquirir uma doença infecciosa são as mesmas de quem não possui um animalzinho.

Vejamos agora as doenças que podem ser transmitidas dos animais para o homem (zoonoses):

Diarréia:

As diarréias podem ser provenientes de alimentos contaminados, mas muitas delas, em pessoas imunocomprometidas, são transmitidas pelos animais de estimação. Para evitar adquirir uma diarréia, a pessoa deve manusear as fezes do animal sempre com luvas, higiene adequada da liteira (caixa sanitária dos gatos) e não oferecer carne crua para os animais, apenas ração industrializada de boa qualidade.

Existem muitas doenças que levam à diarréia. A Salmonelose, por exemplo, é a mais grave, podendo levar à septicemia (infecção generalizada, onde os germes se propagam pelo sangue e nele se multiplicam - dicionário Aurélio) e as principais fontes de infecção nos seres humanos são os alimentos e os animais. Se o animal apresentar diarréia, o dono deve levá-lo ao veterinário. O animal deve ser tratado em local afastado do dono e só poderá voltar depois de confirmada sua cura (depois de dois exames de fezes). Pessoas imunocomprometidas não devem possuir tartarugas, lagartos ou cobras, pois são os maiores transmissores da salmonelose (e não são afetados por ela).

Outra doença causadora de diarréia é a Campilobacteriose, que causa infeção intestinal e sistêmica e pode ser difícil de tratar e, em pessoas imunocomprometidas, pode ocorrer também a septicemia. A maioria dos animais a transmite quando apresenta diarréia, mas animais assintomáticos também podem ser transmissores. Pessoas com AIDS devem levar periodicamente seu animal ao veterinário para exames de fezes. Assim como na salmonelose, os animais doentes devem ser afastados e só retornar ao convívio com seus donos após a cura total.

A Criptosporidiose, até o surgimento da AIDS, não era considerado causadora de diarréia em humanos. Quase todos os casos graves ocorrem em pacientes com HIV ou com outras deficiências imunitárias. A transmissão ocorre por ingestão de comida e/ou água contaminadas, portanto, cuidados redobrados com a higiene sanitária e a água, além de evitar contato com fezes dos animais jovens. Uma dica importantíssima: pessoas imunocomprometidas não devem adquirir animais abandonados, animais silvestres, animais que apresentem diarréia e nem filhotes.

A Giardíase já é bem conhecida, e as pessoas são contaminadas através da ingestão de fezes contaminadas. Os animais de estimação são potenciais transmissores, por isso a importância de sempre se fazer exames de fezes nos animais (já existe, para cães, vacina contra a giárdia). O tratamento é longo e, durante essa fase, o animal deve ser isolado de outros animais e ser banhado para que os oocistos que ficam na pele do animal sejam eliminados. Dica: manter sempre boa prática de higiene alimentar e pessoal.

Doenças de pele:

As infecções de pele em pacientes com AIDS são, mais freqüentemente, transmitidas por Microsporum canis. Os gatos adultos podem ser assintomáticos, mas os filhotes apresentam sintomas. Cães também podem ter a doença e, tanto o cão como o gato, podem transmiti-la para o homem.

Outras doenças:

A Toxoplasmose, em pessoas com AIDS, causa encefalite. Os felinos são os únicos hospedeiros definitivos, eliminando os oocistos nas fezes. Os hospedeiros intermediários são os suínos e ovinos. O homem pode adquirir toxoplasmose pela ingestão de carne contaminada (dos hospedeiros intermediários) e/ou ingerindo os oocistos presentes nas fezes dos gatos, mas dificilmente a doença é transmitida do gato para o homem. Para que não se adquira a doença, é necessário manter sempre limpa a liteira e, no caso das pessoas imunocomprometidas (e também de mulheres grávidas) evitar o contato com as fezes do gato. Uma curiosidade: os gatos soropositivos para toxoplasmose são os melhores para pacientes imunocomprometidos, pois não eliminam os oocistos pelas fezes.

A Bordeteliose infecciona o trato respiratório de pessoas imunocomprometidas. Em cães, é uma complicação de doenças respiratórias, causando febre, anorexia, tosse e corrimento nasal. Em gatos pode causar pneumonia. Já existe uma vacina contra a bordetela, mas não é recomendada para os animais de pessoas imunocomprometidas, pois a vacina é feita com o organismo atenuado, podendo contaminar a pessoa.

Cães e gatos não são sensíveis à Tuberculose, mas podem adquiri-la e transmiti-la para pessoas com AIDS. Os animais que possuem a doença devem ser doados para pessoas não imunocomprometidas.

Os gatos são os maiores transmissores da Doença da arranhadura do gato e os seres humanos podem se contaminar através das picadas de pulga ou de mordidas e/ou arranhões dos gatos. Como os gatos se lambem para se manter limpos, eles contaminam a boca com a bactéria, pois a mesma pode ser encontrada no pêlo, unhas e dedos do gato. Deve-se sempre fazer a prevenção e o controle contra pulgas e evitar que o gato arranhe ou morda a pessoa. Caso isso ocorra, lavar o ferimento com água e sabão.

Como o clínico deve proceder frente a uma pessoa imunossuprimida

São poucos os veterinários que têm consciência que, entre seus clientes, pode haver algum portador do HIV ou mesmo com AIDS. O veterinário, caso um cliente seu esteja com AIDS, deve procurar não apenas cuidar do animal, mas também do bem estar e da saúde do dono do animal, orientando o proprietário sobre o perigo de zoonoses e os cuidados rotineiros, exames e alimentação adequadas para o animal.

Muitos médicos acreditam que pessoas imunocomprometidas deveriam excluir o animal de suas vidas, mas a retirada do animal pode causar efeitos negativos no paciente, além de esse meio de "prevenção" ser o menos adequado. Médicos e veterinários deveriam ser parceiros e trabalhar em prol do bem estar físico e emocional de pessoas imunossuprimidas, permitindo que elas tenham uma vida normal e, se quiserem, possam, sim, ter o seu animalzinho.

Orientando o Proprietário

O paciente deve saber que o animal pode transmitir doenças através de contato direto (mordidas, saliva etc), indireto (fezes, urina, vômito etc) e de parasitas externos (pulgas e carrapatos).

Escolha do animal

Como dito anteriormente, deve ser um animal já adulto, pois corre menos risco de adquirir uma doença, e não pode ser abandonado (recolhido da rua), nem apresentar diarréia ou outros sinais de doenças, bem como estar livre de parasitas externos e internos, além de não adquiri-lo em pet shops (primeiro por razões de saúde e segundo, por questões éticas) e nem em locais com muita aglomeração de animais, como abrigos, por exemplo.

Animais da fauna silvestre, bem como répteis e anfíbios, não devem fazer parte da escolha dessas pessoas, pois o risco de transmissão de doenças sérias, como salmonelose e tuberculose, é mais alto.

As fêmeas devem ser castradas, para evitar infecções do aparelho reprodutor e que tenham filhotes (também é ético).

Logo após a aquisição do animal, levá-lo imediatamente ao veterinário para um check-up geral, verificando se estão livres de doenças. Os gatos devem ser testados para leucemia felina e AIDS felina (Vírus da Imunodeficiência Felina – FIV).

Higiene

O veterinário deve enfatizar o aspecto higiene para seu cliente imunossuprimido: ele deve sempre lavar as mãos depois de interagir com os animais, limpar fezes, urina e vômito. Nestas últimas tarefas, e na aplicação de medicamentos via oral, deve-se usar luvas e, no caso de limpeza de fezes, urina e vômito, usar também uma máscara, se não tiver ninguém que possa fazer o "serviço sujo" no lugar da pessoa imunossuprimida.

A liteira dos gatos não deve nunca ficar na cozinha e nos lugares onde se fazem as refeições, além de ser limpa diariamente. Não se deve despejar a areia, por causa da poeira, que pode ser inalada e infectar o paciente. Coloca-se, então, um saco plástico por baixo da areia e, na hora de retirá-la, retira-se o saco, fechando-o. Desinfetar a liteira uma vez por mês com água fervente – muito eficaz na eliminação do Toxoplasma.

Dieta

Como dito anteriormente, evitar oferecer carnes cruas ao animal, ofertando-lhe apenas uma ração industrializada e de boa qualidade, que irá suprir todas as necessidades nutricionais do animal. Quanto melhor a ração, mais bem nutrido o animal, e menos suscetível às doenças (mais saudável) ele será. Lembre-se: cão comendo ração de cão e gato comendo ração de gato, nunca o contrário, pois provoca diarréia.

Outras coisas importantes que devem ser lembradas: o animal não deve comer as próprias fezes (coprofagia), nem as fezes de outros animais, não deve beber águas contaminadas e do vaso sanitário e não podem caçar.

Mordidas e arranhões

Desencorajar, sempre, brincadeiras onde haja a "participação" de mordidas e arranhões, pois, como já foi falado, as unhas e a saliva dos animais está cheia de bactérias.

Se o animal morder e/ou arranhar, lavar o machucado com água e sabão, além de aplicar um anti-séptico e procurar orientação médica.

Dica: manter sempre as unhas dos animais aparadas.

Cuidados preventivos

Os animais devem ser, periodicamente, submetidos a exames de rotina (clínico e testes laboratoriais). Teste para dirofilariose (verme do coração) é interessante de ser feito.

Cães e gatos devem ser vacinados e vermifugados regularmente. A vacina não previne a transmissão de doenças para o homem, mas assegura que o animal seja saudável, além de oferecer tranqüilidade ao proprietário.

Controle total de parasitas externos (pulgas e carrapatos), pois são vetores de muitas doenças.

Lembre-se: qualquer sinal de doença é uma emergência – leve imediatamente o animal ao veterinário.

Referências

Revistas

Livro

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